APG - Associação Portuguesa de Gagos

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NA ESCOLA

(Con)Sentir a Gaguez

Artigo de Opinião
Íris Bonança (2013), (Con)Sentir a Gaguez. Revista Comunicativa


A gaguez, enquanto perturbação da fluência, pode ser analisada, estudada, moldada, suavizada. Observada e pensada de acordo com todas as suas perspectivas, todas aquelas que lhe quisermos atribuir. Mas, se falarmos de gaguez enquanto característica intrínseca, identificadora e, porque não, definidora da personalidade e das vivências de alguém que com ela se debate todos os dias, em todos os momentos, mesmo sem se manifestar, veremos que marca uma presença avassaladora. Essa gaguez. Essa gaguez é passível de ser quantificada e modelada?

Aqui reside a diferença entre cura e tratamento. É possível tratar mas nunca conseguiremos eliminar a gaguez. É no entanto possível ajudar a sentir a gaguez para possibilitar, a seu devido tempo, o consentimento da sua presença.

Nós, terapeutas da fala, munidos de saberes específicos, estudamos a gaguez como algo que pode ser controlado. Nós ajudamos, nós orientamos, nós estamos lá para ensinar a pessoa com gaguez a conhecer a sua própria gaguez, identificar os pontos fracos e controlá-la. Ajudamos a pessoa a desenvolver um sentimento de segurança, confiança em si própria e de domínio sobre a gaguez.
O problema reside nesse mesmo ponto. A gaguez não é um monstro que precisa de ser derrotado. A gaguez não é uma sombra que persegue ao virar de cada esquina. Um monstro imprevisível que ataca a qualquer momento. Um monstro que por vezes é do tamanho da própria pessoa e outras vezes nem sequer é observável mas a pessoa sente-o como maior do que ela própria. Tudo bem. A gaguez pode ser sentida assim mesmo mas não é por perdurar esse sentir que vamos ajudar a pessoa a senti-la como uma característica e não como um defeito.

Recuemos. Permitam-me reflectir sobre o impacto da gaguez ao longo da vida - diferentes contextos, diferentes interlocutores, diferentes responsabilidades, diferentes “sentidos e estares”. Falarei no plural. É importante que nós, terapeutas da fala, façamos um esforço para sentirmos, vivermos a gaguez e todas as dificuldades a ela inerentes. Só assim conseguiremos pensar a gaguez ao invés de, a todo o custo, pretendermos eliminá-la. (Será que temos esse direito?)

4 anos. "Tenho gaguez. Não me importo. Digo tudo o que quero dizer."

Esta criança não sente a gaguez como um problema. Ela está presente mas não constitui nenhum impedimento nem constrangimento na sua vida. Nesta fase, o trabalho com os pais é fundamental. Os pais são o nosso principal elo de ligação com a criança. São os nossos parceiros no processo terapêutico. Muito se escreve e muito se diz sobre metodologias de aconselhamento parental, estratégias e manuais de boas práticas sobre como agir perante um filho com gaguez. Mas, já alguém parou para simplesmente ouvir os pais? Quais são as suas reais preocupações? Quais são as suas expectativas? Quais são os seus receios, incertezas, dúvidas? Alguém sabe o que é ser pai de um filho com gaguez para além deles próprios? Antes de darmos armas de luta importa parar e perceber quem são os nossos companheiros de luta. De nada serve debitar estratégias se elas não forem usadas. De nada servem metodologias de aconselhamento se não formos capazes de adequar a teoria à singularidade dos pais e do contexto familiar que temos perante nós. De nada serve falarmos do mercado de trabalho se a criança ainda está em idade pré-escolar. De nada serve falarmos de disfluências normais do desenvolvimento se temos perante nós uma criança com gaguez instalada. Falemos do que interessa àqueles pais. Falemos de estratégias, sim!, mas sempre de acordo com a realidade por eles vivida.

8 anos. "Sou gago. Os meus olhos fecham-se e a minha cabeça mexe-se sem eu querer sempre que a gaguez surge. Não gosto de falar nas aulas."

A mesma criança. Uma gaguez aparentemente mais grave. Já frequenta a escola e descreve um impacto negativo em sala de aula. Pergunta - Esta criança está sinalizada?

Vivemos um tempo de fragilidade económica com cortes nas despesas de todos os sectores. A educação não é excepção e portanto há uma redução dramática da presença dos terapeutas da fala nas escolas. Consequência - muitas crianças vêem reduzido o seu tempo de intervenção direta; muitas ficam mesmo sem ele; muitas outras nem chegam a ser sinalizadas.

No caso das crianças com gaguez, em contexto de sala de aula, a sua sinalização é imprescindível. Os professores têm que ter conhecimentos suficientes que lhes permitam identificar uma criança que manifesta comportamentos característicos de gaguez. Atenção redobrada é requerida quando uma criança é pouco participativa, quando não gosta de falar perante a turma, quando por algum motivo (ou mesmo sem ele) recusa ler perante a turma. Atenção professores! Atenção pais! Atenção terapeutas da fala! Esta é também uma responsabilidade que devemos assumir como nossa. O importante não é apenas tratar a gaguez é também actuar de forma preventiva nas escolas. Dotar os professores de conhecimentos e sensibilidade para estas situações. As crianças com gaguez não podem ser prejudicadas por não participarem nas tarefas orais ou por recusarem ler perante a turma por saberem que aquele é um “dia mau” ou por dizerem a resposta errada porque sentiam que iam gaguejar na resposta certa.

Há formas de modificar ambientes de comunicação. Há muito para trabalhar para além do conforto e segurança dos gabinetes terapêuticos.

15 anos. "Sou gago. Gostava de ter uma namorada mas as raparigas nem olham para mim. Todos gozam comigo."

A adolescência. Aquele período da vida em que as relações sociais são tão significativas. Como será viver a adolescência com o sentimento de que a gaguez impede o estabelecimento de relações sociais? Reparem - não escrevi viver a adolescência com gaguez mas sim viver a adolescência com a gaguez como causadora de um impacto social negativo. Muitos são aqueles cuja gaguez não é impeditiva. Talvez por serem capazes de lidar com a gaguez de forma positiva. Talvez por terem um grupo de amigos que ajuda nesse mesmo processo. Talvez por, simplesmente, já terem alcançado a mestria de (con)sentir a gaguez como uma característica intrínseca e não como uma entidade externa que apenas lá está para lhes atormentar a vida. Não sei. Só cada um conseguirá responder por si. A realidade é que muitos mais são aqueles cuja gaguez é vivida como um fardo, pesado e sempre visível aos olhos dos outros - os que ouvem a gaguez e os que nem percebem que ela existe.

Importa mudar este paradigma. O que é mais importante? Modificar comportamentos de fala ou modificar atitudes negativas? Muitos responderão fala, muitos outros responderão atitudes. O que é que eu respondo? Sou terapeuta da fala, sou responsável por tomar uma decisão sobre o processo terapêutico. Essa decisão pode até estar suportada com a melhor prática baseada em evidência mas nunca será bem sucedida se não partilhar com a pessoa com gaguez a responsabilidade da tomada de decisão. As necessidades, expectativas, preocupações e funcionalidade da pessoa ao longo dos seus diferentes contextos de vida nunca poderão ser menosprezadas. A nossa decisão tem um determinado peso no processo terapêutico mas as necessidades, expectativas, preocupações e funcionalidade da pessoa têm um grau de significância ainda maior. Quando tudo depende de nós o que devemos fazer? Olhar em volta e perceber que afinal nunca depende só de nós.

23 anos. "Sou gago. Estou desempregado. Ninguém me dá trabalho por causa da minha gaguez."

A entrada no mundo do trabalho pode ser, infelizmente, dificultada pela presença de gaguez. O contexto laboral pode tornar-se um oceano de estigmas, preconceitos e representações sociais da gaguez. A sociedade em geral ainda mantém enraizadas certezas absurdas que não permitem ver na gaguez nada mais para além de um motivo de gozo, um sinal de pessoa menos inteligente, um alerta para uma pessoa menos capaz de executar qualquer trabalho. É uma luta diária para conseguirem fazer valer as suas capacidades, para mostrarem que a gaguez não é motivo para serem vistos como menos capazes. Que sociedade injusta esta em que uma pessoa menos fluente na fala é automaticamente considerada como menos fluente também nas suas restantes capacidades. Porque é que todos os dias a pessoa com gaguez é obrigada a (sente obrigação de) mostrar algo que nem sequer está relacionado com a produção de fala? Quão cansativo deve ser esta luta diária para quem tem gaguez.

E nós terapeutas da fala? Nesta altura da vida desta pessoa continuamos a trabalhar dentro do gabinete? Não! As necessidades mudaram com o progredir da vida. Impera agora a necessidade de intervir sobre os locais de trabalho. Dotar os restantes profissionais de conhecimentos sobre a gaguez. Intervir, tal como nas escolas, de forma preventiva.

Tão importante é também dar ferramentas à pessoa com gaguez para se tornar num excelente comunicador. Comunicar não é sinónimo de ser fluente na fala. Quantas pessoas com gaguez não se tornaram (ou sempre foram) excelentes comunicadores?

32 anos. "Sou pai e tenho gaguez. O meu filho também tem gaguez."

Primeira ressalva - esta pessoa deixou de se apresentar como gago e passou a apresentar-se como alguém que tem gaguez. Uma diferença abismal. Numa primeira perspectiva a gaguez sobrepõe-se à própria pessoa. É vivida intensamente com tendo um lugar de destaque em todos os seus contextos de vida. Presente em todos os momentos pois não é possível dissociá-la da própria pessoa. Num segundo momento, a gaguez passa a ser encarada como uma característica entre muitas outras. Esta pessoa tem gaguez e usa óculos e tem o cabelo castanho e os olhos azuis e é simpático e é professor. Para além disso é pai. É pai de um filho que também tem gaguez.

Segunda ressalva - Como será viver a gaguez através de um filho? Não é certamente fácil mas o factor hereditário da gaguez permite que tal seja comum.

A terapia da fala tem trabalhado a gaguez de forma muito confortável e segura no interior dos gabinetes terapêuticos. Mas a gaguez tem várias faces. Cada uma com um aspecto e um impacto negativo diferente de acordo com cada contexto de vida da pessoa com gaguez. Aquilo que ela aparenta dentro do gabinete pode ser comparativamente mais grave na escola e menos grave em casa. Entenda-se grave não apenas como o grau de gravidade dos comportamentos de fala observáveis mas também ponderando os sentimentos negativos que a eles podem estar associados.

Mais uma vez, é responsabilidade dos terapeutas da fala preocuparem-se com todos e cada um destes locais de vida da pessoa com gaguez como únicos e distintos entre si. Vamos mudar paradigmas de intervenção. Se pedimos à pessoa com gaguez para treinar fora do gabinete as estratégias aprendidas lá dentro porque é que não vamos nós também lá para fora? É difícil, é exigente. Mas não seremos responsáveis profissionalmente se não acompanharmos a pessoa com gaguez ao longo dos seus diferentes palcos de vida de forma a percebermos o modo como a gaguez neles se manifesta.

Importa mudar atitudes da sociedade. Importa actuarmos todos sobre a prevenção. Como é que podemos esperar evitar situações de bullying nas escolas se não dermos conhecimento em troca? Estamos à espera que o mundo do trabalho se torne acessível às pessoas com gaguez mas não sensibilizamos a sociedade para a problemática da gaguez? As representações sociais da gaguez estão profundamente marcadas na nossa sociedade mas se paramos para pensar sobre o porquê da reacção dos outros perante a gaguez talvez consigamos perceber melhor o motivo. Quantos de nós já não ouviram dizer: “Quando oiço um gago... só me apetece bater-lhe nas costas para ver se fala... só me apetece rir... fico tenso e desconfortável...” ? Qual será a razão para estas reacções dos interlocutores? Afinal a quem é que a gaguez incomoda, é à pessoa com gaguez ou é ao interlocutor?

Tal como aconteceu à pessoa que nos acompanhou ao longo deste texto: aos 4 anos a gaguez era apenas algo que estava presente, sem incomodar; mas aos 8, aos 15 e aos 23 anos já se tornara uma presença avassaladora - porquê? quais são as referências? - a sociedade conseguiu marcar mais do que a própria gaguez; aos 32 anos aceitou a gaguez como uma característica sempre presente mas como uma entre muitas outras que o definem.

Então qual é o nosso papel enquanto terapeutas da fala? A minha modesta opinião... Facilitar o processo de sentir para consentir a gaguez.


Íris Bonança,
Terapeuta da Fala
Especialização em Perturbações da Fluência

Sobre a APG

A Associação Portuguesa de Gagos foi fundada em Agosto de 2005.

É uma associação de âmbito nacional com sede na freguesia de Alqueidão no  concelho da Figueira da Foz.

É desde 2011 membro da European League of Stuttering Associations.

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