APG - Associação Portuguesa de Gagos

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Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez 2019


O dia 22 de Outubro é desde 1998 assinalado como o Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez. As eleições legislativas deste ano trouxeram a gaguez para a arena mediática devido à candidatura e eleição de uma deputada gaga, a Joacine Katar Moreira (JKM). A sua eleição - tal como, na anterior legislatura, de um deputado com mobilidade condicionada – mostra um caminho percorrido na sensibilização da sociedade para as questões da diferença e da inclusão e um outro tanto que falta ainda percorrer.

Através do exercício legitimo do seu direito cívico e político a se candidatar ao lugar de deputada na Assembleia da República, JKM procurou exercer de forma plena e serena o seu direito a gaguejar sem que isso devesse ser motivo de recriminação ou discriminação.

Os acontecimentos desta campanha eleitoral mostraram, infelizmente, o propagar de vários mitos relativos à gaguez. Mostraram como mais do que a dificuldade em dizer esta ou aquela palavra, a maior fonte de limitação para os gagos são os preconceitos com que estes se deparam no dia-a-dia que menorizam e restringem a sua participação na vida em sociedade.

A polémica mostrou, por um lado, a falta de informação ainda existente em relação à gaguez e, por outro, como, devido a essa mesma falta de informação, persiste uma representação estereotipada (e por vezes ofensiva) das pessoas com gaguez, marcada pela condescendência e incompreensão.

Enquanto organização da sociedade civil, a APG pauta a sua actuação pela defesa dos direitos das pessoas com gaguez, com total independência de qualquer interesse partidário. Um dos seus principais desideratos é combater a falta de informação na sociedade sobre gaguez que reduz a identidade de quem gagueja, ao lhe associarem um conjunto de características desqualificantes que não encontram qualquer suporte intelectualmente honesto. Mais que a dificuldade em conseguir um discurso fluido ou em dizer esta ou aquela palavra, são estas as mais perniciosas consequências da gaguez. 

Reduzir a pessoa à sua gaguez é produzir uma discriminação que conduz à sua destituição enquanto pessoa detentora de direitos e responsabilidades, capaz de produzir valor para a sociedade e economia portuguesa. Nesse sentido, a APG, os gagos e as pessoas com gaguez continuam a fazer o caminho do exercício pleno do direito a falar e gaguejar livremente para que um dia se deixe de desqualificar uma pessoa e o seu discurso devido à gaguez.

Há uma questão a considerar no exercício do direito de JKM à gaguez. Pela sua voz, através das suas intervenções, ela falará enquanto porta-voz de todos aqueles que a elegeram. A AR, enquanto órgão de soberania deve assim adaptar o seu funcionamento para acomodar e incluir nos seus debates este tempo e ritmo novo e um pouco disruptivo de participação. Esta Voz que deve ser acomodada e ouvida na sua especificidade, não é apenas a de JKM, pessoa com gaguez, mas a voz de uma deputada representante de milhares de cidadãos eleitores que a escolheram para, na sua voz gaga, com toda a sua musicalidade e ritmos próprios, por vezes em esforço e dificuldade, os representar.

A consolidação de uma democracia implica ver representada na Assembleia da Republica, a casa da democracia, a sociedade portuguesa em toda a sua diversidade. E nessa diversidade entra a diversidade de vozes que não se moldam a uma normatividade da fluência cada vez mais restritiva. Pensemos, por exemplo, nas crianças com gaguez, que em sala de aula são confrontadas com avaliações que incidem sobre o número de palavras lidas em 60 segundos...

Há uma mensagem poderosa a ser lida neste momento. Num mundo que cada vez mais procura moldar as populações a padrões onde cada vez menos se encaixam, perguntamos se não seremos todos gagos. Perante o exercício de poder de imposição de padrões normativos que definem quem está dentro e quem está fora, quem deve e não deve participar, como e em que registo deve ser mantida essa participação, irrompe uma voz gaga legitimada em sufrágio democrático que quebra todos os padrões, que se assume de forma honesta na sua autenticidade frágil e esforçada e busca o reconhecimento do seu direito à existência enquanto voz única e, como tal, viva em toda a sua singularidade.

 

A Associação Portuguesa de Gagos

 

 

Apontamentos Informativos

Cabe aqui esclarecer o que é a gaguez - uma perturbação da comunicação em que a pessoa sabe exactamente o que quer dizer mas o seu discurso é caracterizado por repetições, prolongamentos, pausas e bloqueios, podendo ainda ocorrer movimentos faciais ou do corpo enquanto a pessoa fala.

Estima-se que a gaguez afecte cerca de um por cento da população mundial, assim em Portugal haverá cerca de 100 000 gagos. Quanto às causas da gaguez, estas podem ser genéticas (60% dos gagos têm um familiar com gaguez), neurológicas (pessoas com gaguez usam áreas neuronais distintas de pessoas que não gaguejam), psicossociais ou de desenvolvimento linguístico na infância. Afastada está a hipótese de que se trata de um problema emocional, de ansiedade ou nervosismo. A gaguez ocorre em todas as partes do mundo, em todas as culturas, religiões e grupos socio-económicos, assim como em indivíduos com todos os tipos de personalidade e níveis de inteligência. Provado está ainda que não há qualquer relação entre o nível de inteligência e gaguez. A gaguez afecta sobretudo o sexo masculino, existindo aproximadamente 4 homens para cada mulher com gaguez.

Entre os gagos famosos contam-se: George VI, Joe Biden, Marilyn Monroe, Winston Churchill, Bruce Willis, Ed Sheeran, James Earl Jones, Cervantes, Moisés... José Saramago, Raul Solnado...

 

 

 

Sobre a APG

A Associação Portuguesa de Gagos foi fundada em Agosto de 2005.

É uma associação de âmbito nacional com sede na freguesia de Alqueidão no  concelho da Figueira da Foz.

É desde 2011 membro da European League of Stuttering Associations.

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Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez

laco    22 de Outubro