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Disfluência Infantil: Do Senso Comum para o Bom Senso

Artigo de opinião 

Brito Largo (2011), Disfluência Infantil: do senso comum para o bom senso. Comunicativa, 3,4-7. 

As perturbações da fluência no discurso têm sido, ao longo dos séculos, um autêntico desafio para a humanidade. Na actualidade, mesmo com todos os grandes avanços científicos assentes na tentativa de tudo explicar, a disfluência, vulgo gaguez, parece resistir estoicamente a qualquer tentativa de explicação simples e concreta. São várias as áreas do conhecimento que se têm dedicado ao seu estudo e mesmo do ponto de vista terapêutico (Terapia da Fala) tudo o que se tem concebido e realizado vem reflectindo a inconsistência e heterogeneidade dessas tendências científicas. Uma das questões mais importantes do ponto de vista da terapêutica da fala parece centrar-se em alguma inconsistência conceptual relativa a esta patologia. Assim, é comum ainda emergir uma definição relativamente “mística”, próxima de uma lógica do senso comum, que põe a tónica nos aspectos mais salientes desta perturbação. Quase sempre de forma linear, a dificuldade é caracterizada pelo que é mais visível: dificuldades na produção do discurso caracterizadas por existência de repetições de fonemas, sílabas, partes de palavras, palavras e frases, com tensão muscular visível e dificuldades respiratórias associadas. Com estas características de referência e numa lógica de senso comum, qualquer “leigo” no assunto pode estabelecer o diagnóstico de gaguez. O terapeuta da fala parece ter, neste caso, o papel inglório de confirmar o que parece ser evidente para qualquer cidadão. Também a maior parte das pessoas consegue aperceber-se de alguns dos componentes emocionais associados às manifestações de disfluência.

As perturbações da fluência assumem, do ponto de vista dos sujeitos e dos terapeutas da fala, uma preocupação particularmente relevante quando surgem em fases precoces do desenvolvimento, nomeadamente na primeira infância. Sabe-se, neste caso e numa lógica de bom senso, que numa percentagem significativa de casos a perturbação é transitória podendo mesmo resolver-se sem qualquer intervenção. No entanto, há jovens e adultos que gaguejam e por isso surge a necessidade de uma intervenção atempada. O cerne da questão não depende tanto da espectacularidade do fenómeno mas antes da possibilidade de, com conhecimento fundamentado e domínio conceptual relativo ao entendimento do que é a disfluência infantil, poder fazer uma diferença. É preciso passar de um nível de análise e intervenção, centrado em questões de fala e do funcionamento do corpo, para outro relacionado com as consequências da aprendizagem da língua materna, e transitar da dificuldade de fluência para uma dificuldade de comunicação. Esta concepção permitirá considerar outros intervenientes para além dos habitualmente envolvidos no processo terapêutico e alargará as possibilidades de intervenção, principalmente numa lógica de prevenção. Aqui chegados e para continuar numa visão que se pretende consistente, vale a pena investir algum tempo na tentativa de revelar o que é visível numa situação de disfluência infantil e que paradoxalmente parece resistir a essa revelação.


Onde é que a emergência de Disfluência Infantil tem mais impacto?


Numa lógica de senso comum, é fácil responder: no indivíduo que a apresenta! Mas, porque ficam os pais/educadores/terapeutas e outros tão preocupados? É porque esta dificuldade não tem cura? É porque se alguém gaguejar terá sempre dificuldades no futuro?


Em termos de apoio, perguntam os terapeutas: - Esta criança é daquelas em que a dificuldade se resolve ou ficará a gaguejar? E se eu falho na intervenção? Mas isto pode mesmo resolver-se sem se fazer nada? Mas como podem os pais ficar sem fazer nada face às dificuldades dos filhos? Afinal, quem é que tem o problema?
A disfluência infantil só pode entender-se efectivamente e numa lógica de bom senso, se for considerada como um fenómeno que afecta a comunicação entre a criança disfluente e os seus interlocutores e não meramente uma perturbação da fluência da fala.

 


O entendimento do que é a comunicação humana, neste caso, passa por um enquadramento conceptual muito mais vasto do que aquele que é permitido pela metáfora das telecomunicações dos anos 50. Esta concepção parece ser demasiado linear ao considerar, de forma demasiado estática, o emissor, o receptor, a mensagem, o canal, o ruído, etc. Se se pensar nesta visão clássica aplicada à disfluência infantil, ela emerge como uma dificuldade exclusiva do emissor e por isso a intervenção consistirá em”repará-lo”. Pensando numa definição mais contemporânea da comunicação humana e na sua aplicação à gaguez, ter-se-á de considerá-la de acordo com a metáfora da complexidade e por isso numa perspectiva muito mais alargada do que a da perturbação da fala. É fundamental, então, interligar toda a complexidade do processo de fala com a sua finalidade que é a comunicação interpessoal. Num episódio comunicativo, deve considerar-se o indivíduo numa interacção contínua e dinâmica entre aspectos ligados ao corpo, particularmente ao cérebro e à mente e depois visualizá-lo inserido numa situação comunicativa e num dado contexto, em relação com pelo menos outro indivíduo. Tudo isto se articula ainda com um processo de inclusão e participação na sociedade.


O cérebro, neste processo, é responsável pela responsividade ao contexto, ouvir e descodificar o que é dito e observar a face do parceiro comunicativo à procura de “cunhas” emocionais. Dele depende também a composição do que se vai dizer, a selecção, e sequenciação das palavras do léxico, planificar como dizê-las e desenhar a sequência de movimentos necessária para a sua produção através da fala. Controla ainda todos os movimentos do corpo necessários para falar: respiração, fonação, articulação, modulação do fluxo aéreo e pressão para a produção de sílabas com prosódia adequada. Ao mesmo tempo, ainda vai controlando os sinais aferentes de erro. Até aqui, e genericamente, não se revelou nada de novo. Habitualmente, não se fala em mente quando se aborda a comunicação humana embora a consciência de si, relativa a quem comunica, seja essencial neste processo. A mente, nesta dimensão comunicativa, modula o cérebro e o corpo para responder a factores internos e contextuais como: temperamento, estado de espírito, nível de consciência, ansiedade, nível de fadiga, capacidade cognitiva, e outros, articulando-os com a análise que permite também fazer, do estado de consciência do interlocutor e da situação contextual em que ocorre, o episódio comunicativo.


Numa lógica de linguística funcional, o contexto e a situação comunicativa condicionam a escolha das palavras, como elas se organizam sintacticamente e como se dizem - dimensão pragmática. A forma como se usa a língua varia com o contexto: dependendo de com quem se fala (um amigo, o chefe, uma criança, num grupo, e outros), o propósito da conversa (conversa banal, responder numa aula, liderar uma brincadeira, obter uma informação, dar ordens, fazer perguntas, pedir desculpas) e o modo (ao telefone, face a face, etc.). O fenómeno comunicativo é também condicionado pelo contexto. Há diferenças significativas consoante se estabeleça a comunicação em casa, num escritório ou na rua com ruídos, numa festa, numa reunião de trabalho, etc. Para além da influência destes aspectos relativos ao conteúdo da mensagem e à situação contextual, interessa ainda considerar a sua interacção com a sua concretização, através da fala, nomeadamente: variações de intensidade, entoação, ritmo articulatório e tamanho do enunciado. Há interacções permanentes entre todos estes sistemas e o contexto social que se influenciam mutuamente. A mudança constante de situação comunicativa e a maravilhosa natureza criativa da língua falada ocorrem numa situação de equilíbrio precário, oscilando entre a organização e o caos típicos de um modelo de complexidade. É neste processo dinâmico situado entre ordem e desordem que cada ser humano se pode auto-organizar para responder à imprevisibilidade inerente à comunicação verbal.


Voltando à disfluência infantil e considerando-a como uma desarmonia na fluência, a mesma situar-se-á, eventualmente a partir de uma inconsistência no desenvolvimento, relativa a qualquer um dos aspectos considerados previamente, cruzada com o impacto que a mesma tem numa situação comunicativa, num dado contexto. Tratar-se-á assim de um fenómeno que está para além do corpo, apesar de expresso em falhas da fala. É importante considerar que o desenvolvimento da criança vai ocorrendo na aprendizagem de competências a nível cognitivo, afectivo, linguístico, motor e social dependendo de determinantes biológicas activadas através do ensino/aprendizagem veiculadas pelos adultos. Estes, de forma implícita, submetem a criança a exigências, num desnível ligeiramente acima das capacidades que elas detêm. Geralmente, este processo decorre sem sobressaltos, mas se houver disfluência como reagem os interlocutores? Como vivem a situação comunicativa quando há rupturas de fluência?


Estas rupturas têm principalmente impacto nos mediadores da eficácia comunicativa, todos de carácter não verbal, nomeadamente na falta de contacto ocular, tensão facial e presença de movimentos anómalos ou descoordenados. Em termos gerais, os interlocutores tendem a achar que as pessoas que gaguejam têm problemas emocionais, ficam sem saber como reagir perante as mesmas e têm dúvidas quanto às suas capacidades cognitivas, com eventuais repercussões nas expectativas relativas ao desempenho escolar. Têm ainda dificuldade em manter o contacto ocular quando alguém gagueja, tendem a não respeitar os turnos de conversação dizendo a palavra “difícil” pelos outros, interromper quando há algum bloqueio, mostrar preocupação (pena) e dificuldade em focar a atenção no que é dito. A mensagem pode estar bem construída linguisticamente mas a presença destas alterações distrai os interlocutores e afecta decisivamente a eficácia na compreensão da mensagem. Se se pensar nesta situação vivida por uma criança e pelos seus pais, com toda a tensão emocional subjacente, surge uma mistura explosiva que interessa ter em conta na análise da situação e na definição do programa terapêutico. Sendo assim, parece ser óbvia a necessidade de considerar, em termos de intervenção terapêutica, como objectivo, atingir uma comunicação mais efectiva em vez de uma fala fluida. Por um lado, uma criança confrontada com os diversos desafios do desenvolvimento e da participação social e por outro os interlocutores sem saberem efectivamente como lidar com a situação. No fundo, é importante perceber que comunicar é um processo mais vasto do que ser fluente.

 


Atendendo à previsibilidade das reacções dos interlocutores, as orientações clássicas face a esta dificuldade são:


- Manter um contacto ocular natural durante os momentos de gaguez;

- Esperar de forma natural e paciente que a criança acabe;

- Não acabar frases ou dizer palavras em vez dela;

- Deixar a criança perceber, pelos comportamentos e acções, que ouvem o que diz e não a forma como diz;

- Tentar não mostrar desconforto, empatia ou piedade por alguém que gagueja.


Dada a natureza desta perturbação comunicativa é fácil perceber que ninguém reage de acordo com as orientações referidas e portanto este tipo de soluções acaba por tornar-se parte do problema. Para além das dificuldades que os interlocutores sentem, também as pessoas que gaguejam e principalmente as crianças, têm dificuldade em distinguir o que é uma reacção natural face à surpresa de um modo diferente de comunicar, de uma atitude de rudeza ou má educação. Parece então tornar-se mais claro que, numa lógica de bom senso, é fundamental a inclusão dos parceiros comunicativos principais (pais, familiares, educadores, professores) no processo terapêutico, tanto para perceberem conceptualmente o fenómeno - disfluência infantil, como para se poder conduzir a acção terapêutica numa lógica de adaptação comunicativa a uma nova realidade. Mais do que propriamente visualizar ou obter uma boa performance da criança em termos de fluência. Este caminho favorece também a possibilidade de prevenção da gaguez.


Se prevenir é antecipar e se só se pode antecipar o que se conhece, então é necessário dar a conhecer este fenómeno e ensinar/treinar activamente as formas de lidar com a situação para melhor se lhe atenuarem as consequências.

Sobre a APG

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