APG - Associação Portuguesa de Gagos

Dia Internacional da Gaguez

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A propósito do Dia Internacional de Consciencialização da Gaguez

http://www.sic.pt/online/video/informacao/NoticiasVida/2010/10/dia-internacional-da-gaguez-factores-biologicos-neurologicos-e-sociais-podem-agravar-problema22-10-2.htm

 

 

Porquê comemorar, a nível mundial, um dia de reflexão acerca de uma dificuldade que afecta tantas pessoas?
O lema de reflexão para este ano: “As pessoas que gaguejam, inspiram-nos!”, deixa subjacente uma possibilidade evidente de se poder olhar para esta dificuldade de forma alternativa. Sendo assim, talvez valha a pena começar por se fazer a pergunta mais óbvia:


- O que é a gaguez?


Muito se tem estudado, reflectido e analisado para se poder responder a esta questão. Afinal, parece que a resposta não é assim tão óbvia. Num sentido mais genérico, é fácil considerar que a gaguez resulta de um conjunto de pausas, hesitações e bloqueios em sons, sílabas e palavras que afectam de algum modo a fluência do discurso de alguém, impedindo-o por isso de falar com eficácia. Apesar de simples, esta definição enferma, à partida, de uma limitação pois não considera a grande variabilidade individual na forma como se manifestam estas dificuldades, sendo o desafio actual a este nível considerar se temos gaguez ou gaguezes! Por outro lado, exclui-se nesta visão a pessoa que gagueja. Compreender melhor este fenómeno poderá implicar um alargamento do foco de estudo e análise, considerando-a.
Transita-se assim de um nível de análise da gaguez como facto, para a dimensão da construção que o sujeito que gagueja faz relativamente à sua dificuldade, e como lida com as emoções que este fenómeno lhe provoca. A pessoa que gagueja sofre emocionalmente por se sentir diferente dos outros e para além de gaguejar, vive em confronto permanente com uma visão idealizada de si próprio, na convicção de que não poderá viver nunca a vida que deveria viver se não gaguejasse. O mais impressionante desta concepção é a sensação que se tem da solidão do indivíduo confrontado com os seus limites, sendo este o primeiro e único responsável por tudo o que à gaguez diz respeito. Ainda assim, considerando esta possibilidade de construção e análise, é fantástico verificar que existem pessoas que embora gaguejem são felizes, desempenhando com sucesso as mesmas funções que outros, ditos não gagos, sendo cantores, actores, músicos, políticos, escritores, cientistas, pais, mães,…
Se se olhar para estas pessoas com humildade, pode sentir-se que quem enfrenta a vida gaguejando só pode mesmo inspirar-nos. Mas afinal o que é que cada um de nós, enquanto cidadão comum, não gaguejando, tem a ver com gaguez?
Para responder a esta questão que está relacionada com a elaborada inicialmente, é necessário mais uma vez alargar o foco de concepção e análise. Se colocarmos a questão aparentemente retórica: - Num mundo em que todas as pessoas gaguejassem haveria gagos?
A resposta óbvia é não. - Então porque é que os há no nosso mundo?
Provavelmente, na lógica de uma dita maioria “normal”, é a forma como olhamos para as coisas que as torna iguais ou diferentes, centrando-nos para isso na nossa posição como referência. A definição do que é ou não problema neste caso caberá também a cada um de nós. Como nos dirá então, ela respeito?
Num qualquer episódio comunicativo, encontram-se pelo menos duas pessoas a procurarem influenciar-se mutuamente, num determinado contexto, para atingirem uma finalidade comum, que é verem supridas as suas necessidades individuais. Se uma delas gaguejar, o outro pode não saber como lidar com a situação e todo o processo comunicativo é afectado. Esta visão mais contemporânea acaba por colocar a tónica numa visão do fenómeno gaguez não como algo da responsabilidade individual, mas principalmente como um fenómeno que afecta a interacção comunicativa entre pelo menos duas pessoas. Esta afectação mútua implica responsabilidades partilhadas no confronto com a gaguez e também compromisso dos dois para lhe atenuar os efeitos. Na consciência de que a gaguez do outro nos diz também respeito a nós, enquanto indivíduos, mas principalmente como cidadãos, não podemos deixar de nos tentar colocar na sua “pele”, admirando-o na forma como nos enfrenta com esta dificuldade, e de como temos a obrigação moral de nos deixar por ele inspirar.
Só falando de gaguez, definindo-lhe os contornos, caracterizando-a na visão daquele que gagueja, cruzada com a visão daquele que por ela é surpreendido, podemos todos contribuir para que a gaguez deixe de ser algo místico e possa ser algo por todos compreendido.

Brito Largo
Terapeuta da Fala

Folhetos de Informação

Folheto entregue para informação nos centros de saúde da região centro.

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EU, GAGUINHO

gaguinho

Teria uns cinco, seis anos. Um dos meus locais de brincadeira preferidos era o cemitério aos sábados de tarde ou domingos de manhã, quando as tias iam enfeitar a campa de familiares. Talvez tenha aprendido a relativizar a morte escondendo-me entre cruzes, flores, rostos de olhar eterno cravados na mármore, regadores de água e velhotas cobertas de viuvez, chorando sozinhas.

Por ali vagueava também uma mulher, muda, que guinchava sons desconexos. Apareceu-me um dia de surpresa, num repente. Fiquei momentaneamente esganado de voz e sangue. E o susto ficou para a vida.Os primeiros anos da minha gaguez duraram uma eternidade. Batia na perna quando uma palavra encravava e revirava o olhar para encontrar a sílaba perfeita que não me obrigasse a soletrar em demasia. Na escola, nas borgas, as outras crianças eram naturalmente cruéis. Como todos fomos, um dia. Nunca me chamaram “o gago”, apesar de me terem chamado coisas piores. De resto, eu tinha sempre algo para a troca, ainda que dito de forma mais…espaçada, digamos. Por vezes, a família e os amigos não continham o riso de tantos gestos que fazia para gaguejar menos. Tentava falar devagar para que não se notasse, para evitar bloqueios. Mas de cada vez que me irritava, as frases desmoronavam. O pensamento era sempre mais rápido do que as palavras que eu tinha disponíveis, ao pé da boca, para não me desmanchar em tremeliques.

Apesar desses momentos, nunca a gaguez foi tormento que me levasse a intimidações ou vergonhas. Passava adiante, sempre. Patinho feio não arrastava namoradas e a gaguez, para o caso, não fazia diferença. Não me lembro de ter deprimido e nem sequer ocorreu aos meus pais que o miúdo pudesse ter problemas de integração na escola, pela vida fora. Fui uma criança feliz, amada, com amigos do peito e família sempre presente. E, por vezes, até me esquecia dessa dificuldade de me dizer e saber feliz…como quem soluça.

Com o tempo, aprendi a irritar-me menos com frases do tipo “vá, fala com calma”. Tentei dominar a gaguez, sem dominar as emoções, que sempre as quis à flor da pele e no peito, batendo. Aprendi a viver com ela, no fundo, até saber lidar com a sua quase leve insignificância. Já não bato na perna quando falo. Já não sussurro as palavras dentro de mim para treinar a forma como vão sair. Hoje, há até quem se admire quando digo que, “por vezes, gaguejo”. E até quem ache essa gaguez sexy…Coisas.

Veio isto a propósito da recente descoberta, por cientistas do Reino Unido, de três genes “deficientes” que são os culpados da gaguez. Ela, dizem, “é provocada por perturbações metabólicas que afectam a função cerebral”. Os investigadores estão a estudar em laboratório a produção de uma enzima que a corrente sanguínea dos gagos não é capaz de produzir. É, sem dúvida, uma boa notícia para quem não consegue enfrentar o problema ou é alvo de chacota. Para mim, vem tarde. Eu e a minha gaguez estamos há tanto tempo juntos que já nos habituamos um ao outro. E nunca isso atrapalhou vontades, emoções, sentimentos e certezas. Límpidas. Inteiras. Sem soluços ou bloqueios.

JORNAL DIÁRIO COIMBRA

Gaguez afecta 10 mil portugueses

gaguez jornal

Um caso de gaguez

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Sobre a APG

A Associação Portuguesa de Gagos foi fundada em Agosto de 2005.

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É desde 2011 membro da European League of Stuttering Associations.

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Dia Internacional de Consciencialização para a Gaguez

laco    22 de Outubro