Testemunho Luís Rocha
Sou Luís Rocha, tenho 50 anos e sou gago. Sou gago desde os 5 anos. Na Escola tinha dificuldade em responder às questões dos Professores e na Faculdade estudava até à exaustão para “ me livrar das orais”. Não fiquei como Assistente na Faculdade por causa do seu problema de Gaguez, e tive muita dificuldade em conseguir o primeiro emprego. Mas quando me deram oportunidade não a desperdicei e tenho tido uma carreira Profissional que se pode designar de sucesso para uma pessoa que sofre de Gaguez.
Sou há 12 anos Director do CEARTE – Centro de Formação Profissional do Artesanato (onde lidero uma equipa de 40 Trabalhadores e mais de 150 colaboradores permanentes. Assumo a gestão e a liderança de um Plano de Formação com mais de 300 cursos/ano e 3.000 formandos em todo o país, envolvendo cerca de 500 adultos/ano no Programa Novas Oportunidades e dando também Consultoria a 50 empresas/ano, e ainda dirijo um conjunto de projectos internacionais nos quais o CEARTE está integrado. Todos os dias dirijo reuniões e praticamente todas as semanas faço apresentações publicas.
Para além disso, integro comissões oficiais de trabalho sobre formação profissional, legislação sobre o estatuto do artesão e outras e sou dirigente de várias associações cívicas, politicas e sociais tais como:
• Presidente da Associação Cultural e Recreativa do Seixo de Mira
• Membro da Direcção da Associação Portuguesa de Gagos
• Membro da Direcção da Obra de Promoção Social do Distrito de Coimbra
• Presidente do Conselho Fiscal da Animar – Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Local
Já fui Vereador (não executivo) da Câmara Municipal de Mira e já fui Presidente da Junta de Freguesia do Seixo (Concelho de Mira) durante 12 anos.
Encaro a Gaguez como uma limitação mas nunca como um impedimento. Sempre assumi a vida numa luta constante contra este “ inimigo invisível” que é a gaguez, e faço de cada dificuldade um desafio, uma batalha pela afirmação da personalidade – a gaguez não pode impedir nunca o meu valor como Pessoa, como Profissional e como líder.
É um estado de espírito e uma atitude que tem de se manter sempre alerta. Uma luta entre a coragem ou o medo, a confiança ou o receio, o assumir ou o esconder-se, o desânimo ou a força de vontade para ultrapassar esta perturbação da fala. É difícil fazer tudo isto sozinho mesmo com muita determinação – a ajuda e o apoio da família, dos colegas de trabalho e, nos momentos certos, dos Terapeutas, é vital.
Mais que um gago sou uma Pessoa, com defeitos e virtudes como todos. Não pretendo ser “exemplo” para ninguém contudo queria dizer-vos que assumo todos os dias e em todos os momentos a minha gaguez, procurando ser determinado, tentar ser referência e, onde estiver, “deixar marca”.
Fico feliz se esta partilha deixar alguma marca positiva em algum de nós e nos fizer acreditar … que é a primeira condição para fazer acontecer … e já agora … ser felizes
Luis Rocha
Testemunho Hélder Silva
Chamo-me Hélder Silva, tenho 24 anos, sou da Póvoa de Varzim (…). Sou gago desde que me conheço como gente. Tenho história familiar, a minha mãe também gagueja e nunca se falou muito deste assunto cá em casa. Desde pequeno tenho memórias de colegas a gozarem comigo pela gaguez, tanto nos recreios como em plena aula de leitura. A professora primária sempre me forçou a ler, e sempre que lia ouvia risos, comentários e ficava cada vez mais nervoso e mais nervoso ao ponto de chorar de nervos. Ao longo do tempo, isso passou para a auto-estima, a sentir-me inferior aos outros por este problema.
Passei para ao 5ºano, escola nova, colegas/amigos e professores novos. O problema com a gaguez manteve-se dentro da sala de aula mas cá fora, ia-se dissipando lentamente. Talvez porque conhecesse outras crianças que se calhar não ligavam tanto à diferença. Nesta altura era aluno mediano, tirava 3 e 4 como qualquer aluno, piorava a português e inglês porque se tinha de falar e ler em público. Fora da sala de aula era considerado um pinga-amor, todas as raparigas gostavam de mim, possivelmente porque era mais sensível e fui obrigado a crescer mais rápido que qualquer miúdo daquela idade.
Do 5º ao 9ºano foi um pulo, cresci sempre com o preconceito de falar em público ou à frente de alguém com autoridade porque gaguejava bastante ou nem falava sequer de tão nervoso que estava. No meio destes anos, pratiquei diversos desportos, futebol, natação, andebol, basquetebol e ténis. Sempre fui um rapaz de “socializar” e dava-me bem com toda a gente mas falar em público ou admitir que era gago fazia e faz grande confusão.
Chegou o secundário, onde tinha de apresentar trabalhos aos quais até aqui tinha-me esquivado a praticamente todos. Novamente novas turmas, nova adaptação aos colegas e voltar admitir que sou gago e na aula da apresentação fazia um enorme esforço para dizer o meu nome apenas, tal era a ansiedade, o estar a contar quantos faltam para chegar a mim, o nervosismo que se apoderava do meu corpo. Uma situação caricata foi em crer falar e não conseguir de tão cheio de ar que tava, o meu colega de carteira bate-me nas costas e digo a frase toda em 2 segundos, tão rápido que ninguém percebeu nada do que disse. Toda a gente desata a rir e eu inclusive.
Ao longo deste percurso, raros foram os professores que compreenderam o facto de eu ser gago e sempre que tentavam forçar a alguma coisa eu rejeitava, porque sentia-me humilhado!
Contudo, no meio de tanta coisa, tanto preconceito tanto dos professores como boa parte dos colegas, criei defesas. Não defesas como uma armadura que não deixava penetrar ninguém mas defesas em termos de indiferença, deixei de ligar ao “olha o gago”, ao apontar do dedo quando passava na rua, e fui construindo uma vida para além da sala de aula, fui vice-campeão regional e distrital de ténis, tenho medalhas de futebol e basquetebol em diferentes escalões, socializei sempre com os meus verdadeiros amigos, fui desinibindo-me aos longo dos tempos, criei objectivos de vida, lutei por tudo que achava que era certo!
Esta força e determinação fora da gaguez sempre me levou a bom porto, contudo sinto que a tenho porque sempre quiseram deitar abaixo e sempre quiseram pensar que eram melhores que eu por ser não serem gagos e isso deu-me a força para dizer sou tão bom ou melhor que qualquer pessoa que não gagueja.
Cheguei à faculdade, onde tirei análises clínicas e Saúde pública, e mais uma vez, trabalhos sucessivos, novo público! Sempre com a ideia na cabeça que não conseguia falar em público, todos achavam estranho como falava quase fluentemente fora da sala de aula e dentro não dizia uma palavra sem demorar 10segundos para começar. Lembro-me apenas de ter apresentado 2 trabalhos no curso inteiro porque entrava em total pânico quando chegava a minha vez de falar mesmo conhecendo as pessoas e elas a mim, continuava os risos, as bocas, etc. , de tal forma que os suores frios, os tremores e a ansiedade extrema não permitiam que eu dissesse uma única palavra. Várias vezes foi chamado à parte por professores que queriam que apresenta-se e não entendiam o porquê que não conseguia apresentar nada em público. A mais marcante foi um professor chegar ao fim de uma aula de apresentação de um trabalho de grupo e eu não apresentar rigorosamente nada e dizer “Foi o Hélder que fez este trabalho todo e não tenho dúvidas nenhumas disso. O Hélder sabia este trabalho na ponta da língua, dizia-o sem olhar sequer para apresentação. Porque que não apresentou?”. Nesse dia senti-me revoltado comigo mesmo! Porque todo o que ele disse era verdade e senti-me frustrado, angustiado e pior que isso burro por não aceitar esta diferença e ligar ao que os outros pensam!
Mais tarde viria os estágios, análises clínicas têm de se lidar com pessoas e conversar com elas e eu adoro isso! O problema seria como as pessoas reagiriam à minha gaguez. O coordenador de curso fez questão de avisar todos os locais de estágio que eu era gago. A partir daí, assumi que todos já saberiam da minha situação, nos 1ºs dias de estágio gaguejei, gaguejei muito mesmo! Mas sabia as coisas todas relacionadas com a área de estágio e nas colheitas queria ser simpático e queria ser igual a qualquer um. Acabei os estágios deixando amigos em todos os locais por onde passei e terminei com média de 17 os 4 estágios, 2 deles com média de 19.
Posteriormente veio a tese, estudei um mês para fazer uma apresentação de 10min e os nervos, a ansiedade, a vontade de querer fazer bem e sem gaguejar era tão grande que não consegui dizer o título na defesa final. Considerei até hoje o maior falhanço da minha vida. Não por ser gago, mas por querer tanto fazer bem, querer mostrar que sabia e tirar grande nota não consegui falar nada. Irritou-me muito e nesse dia queria desaparecer! Contudo deram-me a nota de uma apresentação treino que realizei para as orientadoras, nota final de 17. Mas sabia que podia ter tirado 19!
Apesar de todos os contratempos acabei o curso com média de 16 com muito orgulho e considerado dos um dos mais promissores pupilos a sair naquele ano.
A minha tese foi apresentada sob a forma de poster num congresso internacional e nacional. No congresso nacional fui eleito um dos 5 melhores trabalhos de Análises Clínicas a nível nacional contudo tinha de apresentar o trabalho para uma plateia e recusei porque não conseguiria enfrentar o público e iria gaguejar como tudo. Arrependo-me muito hoje porque seria uma mais-valia no meu CV.
Durante a procura de trabalho vi ofertas recusadas por ser gago e ouvi literalmente “Você é gago??!! vá se tratar pah!!!”.
Até que finalmente encontrei trabalho, fui bolseiro de investigação onde tive de realizar colheitas ao domicílio, onde tive de fazer inquéritos às pessoas, onde fui obrigado a falar ao telefone… Como todos nós sabemos algo muito complicado para quem é gago! Procurei ajuda, aconselharam-me principalmente exercícios respiratórios e que praticasse todos os dias. Assim o fiz, melhorei a fluência quando estava calmo mas ao mínimo stress ou complicação ia-se tudo ao ar! Fiz das tripas coração, enfrentei pessoas que não conhecia, vi as piores caras a olhar para mim, ouvi comentários “de você é mesmo gago”, pessoas riram-se literalmente na minha cara, liguei a pessoas a gaguejar bastante mas CONSEGUI!! Fiz tudo o que pude, consideraram-me estranho inicialmente mas um óptimo profissional depois de me conhecer, gaguejei muito, pensei e angustiei muita vez antes de ligar a alguém mas no fundo acho que todos somos assim!
Recentemente também me inscrevi em mestrado, mais uma vez tive de apresentar trabalhos! Pela 1ª vez na vida, gaguejei como tudo, (…) mas conclui sozinho uma apresentação feita por mim em mestrado! Foi o dia mais glorioso e mais fantástico da minha vida! Consegui ultrapassar o meu medo, para um público pequeno e em silêncio consegui expressar-me! Se me perguntarem continuo a ter medo? Sim continuo! Se pretendo desistir? Não, não pretendo!
Actualmente estou com média de 17 de mestrado, e vêm aí a dissertação final e mais um júri que vou ter de enfrentar! Estou a tremer, estou a balançar com medo de repetir o que fiz na tese de licenciatura e não conseguir dizer nada! Mas deixo aqui uma mensagem de luta e insistência de quando somos bons não devemos parar de lutar!
Temos objectivos de vida, sermos boas pessoas, sociáveis, sermos bons naquilo que fazemos só depende de nós (gagos ou não) tanto na vida profissional como pessoal!
Sou sincero que muitas vezes a gaguez faz-me faltar a confiança, faz pensar que posso não ser capaz quando no fundo sei que sim, mas persistir e lutar a cada dia e conquistar as pequenas grandes vitórias é importante! Falar ao telefone, falar em público, admitir que somos gagos é difícil e custa, mas temos de lutar e tentar ultrapassar as barreiras. O filme discurso do Rei é um óptimo exemplo disso e muitas vezes emociono ao vê-lo.
Quando se quer tudo é possível!
Atenciosamente,
Hélder Silva
Testemunho José Carlos
O meu nome é José Carlos (José Carlos ou Carlos é mesmo o que prefiro, apesar de a maioria das vezes ser tratado por amigos e colegas por Zé). Interessante, não sei até que ponto o facto de não insistir para que me tratem pelo nome que mais gosto derivará da minha gaguez… E esta dúvida não me parece sequer trazer em si daquelas verdades escondidas, é mesmo uma pura e inocente dúvida. É bom ter estas dúvidas, afinal com certeza que deve haver pessoas não-gagas que passam pelo mesmo e não insistem, não? Ter as mesmas dúvidas acerca da nossa capacidade comunicativa que um não-gago é um grande passo, não acham?), tenho 27 anos e não tenho a certeza se gaguejo desde que me lembro.
Uma história que agora já parece envolta em confusão e incerteza faz-me lembrar que comecei a gaguejar por causa da canção “atirei o pau ao gato…” (ou das várias coisas que eram ditas na minha infância, eu agarrei em algumas e inventei algumas memórias, não descarto essa possibilidade, a mente humana é mesmo incrível).
Tenho uma gaguez com alguns tiques associados, por vezes fecho os olhos, ponho a língua de fora, coisas dessas. Mas também tenho alturas em que quase não gaguejo. Em que se contam pelos dedos de duas mãos as vezes por dia em que tenho alguma dificuldade, e apenas leve. A ler é relativamente provável que tenha poucas dificuldades. Mas claro, tudo isto depende muito dos dias. Não é do tempo, não é da lua, é apenas da aleatoriedade, do caos, do que quer que seja. É e pronto. E eu falo e pronto. Se tenho coisas a dizer, gaguejo. Mas digo-as. Curiosamente, não sei se posso dizer que a tensão piora a minha gaguez. Se há alturas em que de facto piora, há também outras em que até ajuda a ser fluente, em que o entusiasmo diminui a gaguez. Talvez metade-metade…
Relativamente ao telefone, tenho alguma ansiedade, mas sei que se falar pausadamente a coisa deve correr mais ou menos bem. Além disso acho que o não estar cara-a-cara com a pessoa ajuda a tirar alguma pressão. E se gaguejar, se não me fizer entender, torno a recomeçar. E de novo outra vez, se for preciso.
Entrei em contacto com a Associação Portuguesa de Gagos quando fazia terapia da fala. Desde então tenho participado nas Jornadas sobre a Gaguez, nos almoços e jantares-convívios… Tem sido uma experiência incrível. Tenho convivido com pessoas que hoje considero verdadeiros exemplos na maneira como lidar com a gaguez. Que raios, exactamente porque é que eu não posso conseguir também?
A gaguez limita alguns aspectos da nossa vida, não o neguemos. Algumas pessoas que não gaguejam verbalmente são muito mais “gagas interiores” que alguns gagos no verdadeiro sentido do termo, certo. Mas todos sabemos que se não fossemos gagos, teríamos tido uma vida diferente, ou melhor, seriamos pessoas diferentes, e a níveis que só podemos imaginar de longe. A níveis que só em certos, curtos, momentos vislumbramos.
Mas a gaguez também nos transforma em pessoas peculiares. Muitas vezes se fala da necessidade de dar mais de nós próprios para “colmatar” a gaguez. É uma das questões pertinentes ao nível profissional mas também, e mais importante, parece-me, ao nível pessoal, não concordam? Quantos de nós não damos mais de nós do que os não-gagos? Quantos de nós, a nível pessoal, não damos mais de nós próprios?
Sou estudante, e tenho alguns episódios relativos à gaguez que ilustram a “luta connosco próprios” que caracteriza os gagos. Curiosamente, não posso dizer que tenha sofrido muito (quase nada mesmo) com a descriminação dos meus colegas – mesmo em criança, e as crianças podem ser terríveis, todos sabemos. A discriminação (muitas vezes escondida, ou distorcida, não de forma directa, claro) vem dos adultos… É mesmo verdade. É mais uma coisa em que a gaguez escapa à regra…
Uma vez, há cerca de 14 anos e numa aula, em que me estava a portar menos bem do que o normal (era um modelo de aluno!), a professora chamou a atenção dizendo algo do género “o senhor gago, faça o favor […]”. Pode ser brutal, ainda mais vindo de quem deveria ter uma sensibilidade especial para o assunto (e este caso serve para exemplificar o trabalho que poderá haver a fazer neste campo; não se deverá contar que o problema seja apenas a “falta de informação”, mas talvez falta de formação mesmo – isto é assunto a aprofundar)… Mas muito decididamente apontei o dedo à professora e disse “stôra, eu não lhe aceito isso”. A senhora desfez-se em desculpas.
Na universidade, especialmente nas disciplinas da especialização, em que há maior grau de interacção professor-aluno, fui talvez dos alunos mais participativos. Alturas em que tinha algo a dizer, alguma dúvida, alguma resposta que mais ninguém sabia, não me calei.
Como se diz ” Deus dá o fardo, mas também dá a força.” – não quer dizer que eu seja um especial crente, mas fica a ideia. E quantos de nós por vezes não nos admiramos com a relativa “fragilidade” de pessoas à nossa volta, que se deixam abater por coisas que a nós não parecem deixar grande mossa? Cada um tem a sua cruz, mas mesmo assim eu pergunto: será que a gaguez também não nos fez mais fortes? Todos temos os nossos períodos menos bons, e há alturas em que sentimos mesmo que a gaguez é a maior das dificuldades e que não há mesmo possibilidade de felicidade; mas depois, sei lá, parece que há outros momentos em que nos sentimos tão fortes… Eu pelo menos penso, será que a gaguez não contribuiu para isso, para eu ser forte? É uma das coisas que a vivência da APG me tem permitido, e acho que é algo de muito valioso e que confere um certo empowerment, é uma das maneiras de ver a gaguez que acho mais positivas, encarar a gaguez não só como uma oportunidade para daqui para a frente alcançar muito mais, devido à superação dos obstáculos e à continua melhoria pessoal, a humildade para a qual penso que os gagos estão especialmente sensíveis, mas também como algo que já, ao longo da minha vida, “contribuiu” para coisas em mim de que eu me orgulho…
A todos, cumprimentos.
José Carlos
Testemunho Luísa Afonso
Sou a Luísa, tenho 24 anos, vivo no Porto, sou Farmacêutica e gaga desde que me lembro da minha existência. A minha Mãe conta-me que comecei a falar aos 2 anos (acho que é o normal) e que só se deu conta que eu era gaga quando eu tinha 3 anos. Aos 5 anos fui para uma terapeuta da fala e só saí de lá aos 9. Não sei muito bem porque saí, nem me lembro do que fazia lá. Mas também eu não me lembro de muitas coisas da minha infância e acho que isso se deve ao facto gaguejar. Isso afectava-me muito eu não me relacionava muito com as pessoas. Tinha medo de falar, era gozada na escola, uma timidez absurda, enfim… o normal para um gago.
Aos 13 anos comecei a ficar mais “espevitada”. Continuava muito gaga, mas já tinha consciência de mim enquanto pessoa e sabia que era um pouco mais do que a gaguez. No Secundário mudei de Escola e consegui fazer amigos muito facilmente (o que para mim até foi estranho).
Chegou a decisão de escolher a profissão e, apesar de a gaguez ter tido um aspecto preponderante, escolhi o curso sem outras alternativas. Eu acho que estava numa de “vamos indo e vamos vendo” sem pensar muito no que uma farmacêutica tinha de falar. Na Faculdade chegou um grande problema: fazer trabalhos e apresentá-los oralmente aos colegas. Para mim era um bicho de 7 cabeças e parecia que ia para a guilhotina. Lá me decidi a ir procurar ajuda para conseguir apresentar os tais trabalhos sem o stress associado. Falei com a minha antiga terapeuta e ela como já não “tratava” de gagos encaminhou-me para [um novo] terapeuta […]. Eu pensei que ia ter aulas de respiração ou de dicção, ou de sei lá. Mas não foi nada disso. Ele ajudou-me a desconstruir o problema da gaguez e a encará-la como uma parte de mim que eu não posso apagar, mas sim tentar controlar expondo-a sempre.
Como todos sabem isso não é nada fácil. É um processo que todos os dias tem de ser experimentado e testado. E às vezes não resulta. E ficamos frustrados e temos de renascer das cinzas como uma Fénix.
Passada a Faculdade veio o problema do estágio. No meu curso é obrigatório fazer um estágio numa Farmácia Comunitária – as farmácias de rua – o que para mim, apesar de já ter ferramentas para me controlar e gaguejar menos, era muito complicado. Imaginar-me a atender clientes todo o dia entrando um e depois outro sempre a falar com pessoas diferentes. Ui… Nem queiram imaginar. Mas lá consegui…
Mais uma prova superada! Tanto consegui que tive a sorte de ficar a trabalhar nessa farmácia. Grande parte dos clientes desta Farmácia é regular e sabe perfeitamente que eu sou gaga. Há quem não goste de ser atendido por mim, há quem goste, há quem fale comigo sobre o assunto, há quem não fale. Enfim… Há de tudo como na Farmácia.
Um problema com que me continuo a debater é o telefone. (Mas até já ando numa fase melhor.) Detesto falar ao telefone da Farmácia. Estava sempre a fugir ao telefone, mas apercebi-me que eu de facto não posso fugir, senão não consigo mesmo usá-lo. Agora já consigo utilizá-lo para falar com clientes e com fornecedores… Falta-me a fase dos médicos e dos delegados. Eu acredito que um dia consiga falar com toda a gente ao telefone, mas tem de ser com algum tempo…
Só falta falar de ser gaga mulher, pois a meu ver é muito diferente de ser gago homem uma vez que a nós mulheres nos é pedido que sejamos perfeitas: cabelo, cara, unhas, corpo, e claro que gaguejar é uma falha muito grande para a sociedade.
Espero que consigam ter chegado até ao fim do meu “testemunho”.
Luísa
P.S. Agora que estou a reler tudo parece que às vezes me contradigo, mas a gaguez é mesmo assim: uma contradição permanente!